Carta a um amigo dos Sertões de Canindé
Você se esqueceu de mim? Foi? Somente porque sou magrinho? Ou é por causa do verão? Faltou chuva, inverno fraco, Campos Belos empoeirado, ventania, amizade minguada? Mas amizade também se planta e carece de cuidados, especialmente no seco, no tempo das vacas magras!
Mandei-lhe uma crônica sobre uma casa de taipa no Serrote Branco... e nada de RE.
Falta-lhe tempo? O fazendeiro campos-belense está às voltas com as cotações? Preocupado com a Bolsa? Ou é sua preciosa coleção de relógios antigos a ocupá-lo, tal especial ourives a zelar diariamente essas maravilhosas máquinas do tempo? (Tempo antigo, relógios de algibeira, preciosas relíquias que se usavam no cós, cebolões a reluzir seu volume redondo e de prata ao lado da virilha e sobre uma calça de linho a tremer). Orgulho muito de uma classe média quase inocente que constituía a sociedade dominante daquelas bandas da Serra de Baturité e dos Sertões de Canindé – um e outro irmanados, precisando sempre um do outro, sendo a Pendanga a via-mestra de ligação, a permitir o intercâmbio entre a caatinga sertaneja e o verde tão permanente daquela serrinha incomparável!
Diga alguma coisa, homem! Os pobres merecem alguma atenção; não precisa ser de elogio; mas ao menos dizendo que leu! Quem escreve gosta de saber como o leitor reagiu. Pode ser sincero, abra o jogo, reclame, até se esprite, se achar que deve. Dê zero se achar merecido.
Ao escritor, não havendo leitor, é como carregar pedras de um lugar a outro e tornar com elas ao mesmo lugar: nada feito! Autoestima em frangalhos!
Lembrei-me de um bodegueiro de Guaramiranga, de nome bonito, o Domício - que quase mistura doce com comício. Eu tinha cinco anos. Tio Hélio Ribeiro Maia, o mestre, falecido em 1983, vez por outra lembrava um mesmo e interessante episódio que se dera com essa pessoa.
Eu o conheci, lá na rua de Guaramiranga, sujeito vermelho, entre gordo e pesado, pescoço curto, baixa estatura, uma risada quase igual; via-o lá dentro da sua bodega, bem defronte; eu cá sentado nos batentes da coletoria – que ainda hoje lá estão - a esperar o meu pai coletor, a trabalhar com seus talões, a sua burocracia dos impostos de café, de aguardente e dos Prés – que eram o contracheque dos policiais; e ele, o Domício, lá na sua bodega pobre, de duas portas, balcão de alvenaria inteiriço - ele pulava de dentro para fora e de fora para dentro, quando algum freguês ali comparecia a pedir uma dose de cana. Nas paredes sem cor, algumas prateleiras enfileiravam uma coleçãozinha de cachaça Brejo (do Arcelino Matos Brito), a Fonseca (do Francisco Fonseca, do Gado dos Ferros), a Bagageira, uma zinebra Fox, uma lata de querosene, barras de sabão, farinha caroçuda, rapadurinha melada... um grande comércio, já se viu! a servir a uma minguada população de agricultores de serviço braçal, diaristas de uma economia irrisória... se bem que alguns patrões, endinheirados e herdeiros, curtiam uns PY7VCS e já adquiriam o jipe dos anos cinquenta e a rural willys.
Ano de 1952. O Domício, a escutar um radinho, ouviu notícia de tiro, assim como uma chamada, uma manchete extraordinária, em que uma musiquinha a antecede, tipo Repórter Esso, da Rádio Jornal do Comércio, insistente, pra chamar a atenção do ouvinte: “Atenção, atenção. Noticiamos que há poucos momentos um tiro... baleado... Pedro Wilson Mendes... de frente ao Ipec”.
O rádio silenciou então; não repetiu a notícia, não deixou claro nem explicado o acontecido à bala. As ondas hertzianas minguaram, sumiram atrás das montanhas da nossa linda Guaramiranga. Domício preocupado. Domício angustiado. A notícia lhe dizia respeito. O fato era de muita relevância. Aquele nome, Pedro Wilson, era um amigo, conhecido de todos, defensor dos pobres, família de Baturité, um advogado, dono do Sítio Escondido, ali vizinho do São José, sócio do Jonas Carlos da Silva. O radinho permaneceu quase mudo; somente chiava, para mais ou para menos, à medida que o ponteirinho rolava à direita e à esquerda. Não alcançava, o Domício, a sintonia no rádio que esclarecesse, completamente, a notícia que misturava o doutor Pedro Wilson e um tiro.
Já que a agonia se eternizava e o esclarecimento não vinha, eis que o Domício, ansiado e vexadíssimo pela notícia incompleta, disparou um soco fulminante sobre o rádio, dizendo:
- Diabo, diz ao menos que o home morreu!!!
E morreu o Dr. Pedro Wilson Mendes defendendo uma questão de terra, na Serra de Baturité.
Rua Pedro de Queiroz, Fortaleza, final de julho de 2010
JCdeGuaramiranga
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